quarta-feira, 2 de fevereiro de 2011

Comentário de Helena Mello do blog Palcos da Vida

Uma audácia que não se perdeu na curva

No meu entender, o público tem sorte do Porto Verão Alegre ser quase um Festival Julio Conte. Afinal, na programação estão incluídos vários espetáculos desse diretor que teve a dádiva e a desgraça de ter feito Bailei na curva. Digo isso porque acompanho a cobrança que existe sobre ele de continuar fazendo algo no mesmo estilo. Porém, já faz tempo que ele demonstra que não pretende viver dos “louros” de um dos maiores sucessos do teatro gaúcho. Mas também é verdade (pelo menos a mim parece) que é, justamente, isso que permite que ele tenha o atrevimento de trazer para o público seus “experimentos”. E é assim que eu vejo Essa noite se improvisa. Não porque não seja acabado, porque seja menor ou mais simples. Muito pelo contrário.

Acho que não é preciso ser psicanalista para saber como é complexo misturar várias linguagens e deixar todas elas quase ao sabor do vento. Eu disse quase. Isso porque é clara e nítida a mão do diretor em tudo que acontece. E esta mão é firme e competente e ao mesmo tempo sutil. E eu acredito que não existam tantos diretores que tenham esta coragem, esta audácia de correr riscos todo o tempo. Tudo que é proposto pode, simplesmente, não funcionar ou funcionar hoje e ser terrível amanhã. Claro que sempre é assim no teatro. Só que Conte leva isso ao extremo.

Em teoria, o que ele propõe poderia ser extremamente chato e monótono: reproduzir cenas de filme no palco. Mas como ele não pretende deixar por menos, não é qualquer filme, mas Um bonde chamado desejo. Uma história conturbada, cheia de nuances, com personagens complexos e, cá entre nós, com um elenco que intimidaria qualquer um. No entanto, aquele grupo demonstra toda a sua disponibilidade e se coloca à disposição para aceitar o congelamento das cenas, o retorno, a inversão. Conte “brinca” com seus atores como alguém que tem o controle do DVD na mão e faz isso enquanto projeta as cenas do filme e as imagens da própria cena no palco. Mexe com o tempo e com espaço. As trocas dos atores que encenam personagens de outros sexos remetem a própria homossexualidade do dramaturgo americano e tudo isso acaba interessante e divertido.

Incita, também, a participação do público e de uma maneira que eu que entrei decidida a não fazer nada já estava repensando esta decisão. Mesmo que quem se habilite tenha alguma experiência, serve para fazer entender melhor o teatro e dá a oportunidade para aqueles que sempre sonharam em pisar no palco. Aliás, este é um ponto importante do espetáculo. Uma espécie de aula que a gente leva de brinde. Sobre Tennesse Williams, sobre improvisação, sobre personagens...

Agora, se você faz questão de assistir a uma peça, vai se perguntar por que está vendo um filme, se você quer ver o filme, vai querer saber por que precisa ver aquelas cenas. Se você já conhece Tennesse Williams vai achar que não precisava tantas informações sobre ele. Se nunca ouviu falar vai achar ruim que tanta coisa seja dita em tão pouco tempo. Assim, eu sugiro que você não fique criando expectativas, mas esteja aberto a uma proposta que pode até não ser só teatro, pode também não ser filme, nem aula, mas que, sem dúvida, é uma experiência artística. Vendo Essa noite se improvisa entendo, completamente, o medo de Blanche Dubois de enlouquecer e fico em estado de alerta quando ouço Julio Conte dizer: “se me der na louca...” porque sabe-se lá o que esta mente criativa será capaz de fazer.

sábado, 29 de janeiro de 2011

EU CONFESSO QUE ERREI

Depois de uma primeira apresentação recheada de equivocos meus de planejamento, na segunda apresentação, ontem, Essa Noite Se Improvisa Tenneesse Wiliams começa a achar o caminho. Em meu processo criativo a intuição joga um papel central. Mas outras influências entram no conjunto de forças que compõe uma criação. Uma delas é a tendência a buscas posições de segurança. Toda obra de arte é um salto no escuro e sem rede, mas algo dentro tenta controlar e evitar a vertigem criativa. A proposta deste trabalho era improvisar cenas do Bonde Chamado Desejo. Pairava um tanto obscura em minha mente as intenções e qual seria efetivamente a busca estética deste espetáculo. Em Milímetros de Mercúrio que se apresenta semana que vem, eu tinha a proposta de fazer um trabalho estético enveredando por caminhos que não tinha claro, e o resultado é, na minha opinão mais íntima, um dos melhores que fiz. Já em Essa Noite Se Improvisa, as luzes no trajeto estavam obscuras. Tinha noções de onde chegar, mas as imagens que o óraculo interior me oferecia não eram claras. As vicissitudes do interpretador de sinais e signos internos é sempre obscura. Dia anterior a estréia fiz um teste usando jogos de improvisações que já havia feito em trabalho anterior. Aparentemente era um porto seguro. Funcionavam e algo dentro de mim muito semelhante a um medo do desconhecido entrou em cena e resolvi então usar os jogos para abrir Essa Noite. O medo as vezes é um bom conselheiro, em especial nas situações de risco de morte e preservação da espécie, mas quase sempre empurra o sujeito para uma posição de segurança. Resultado que a primeira apresentação do Essa Noite, na quintafeira, não se realizou nem como uma noite de jogo, nem como Tenneesse. Ficamos no meio do caminho. Uma noite de reflexão, cansaço e uma depressão, segundo Freud as condições ideais de produção criativa, resolvi que tinha que ser radical e coerente com a proposta. E o que era obscuro, se apresentou como um sonho revelador. Entendi a peça que estava tentando fazer. Na sexta, limei toda as cenas de jogos improvisacionais. Cortei todo o jogo de sedução e apostei na extensão de um dos temas centrais da peça: a ilusão versus a realidade. Era este o elemento que me faltava. Essa Noite Se Improvisa Tennesse Wiliams é uma peça de teatro, sim, não um ensaio aberto, mas encontra-se no limite do real e do imaginário. A ideia que se revelou foi que tinha que descontruir a ilusão e em meio ao concreto da realidade re-encontrar a ilusão. Foi aí que a elipse de fechou. O tema da ilusão-desilusão aplicada a semilogia do próprio espetáculo. Assim, a peça começa direto com o "estudo" do texto, da peça, dos elementos da vida de Thomas Lanier Williams. E sobre "ensaio" a peça se desenrolou. Fizermos seis cenas da peça e tivemos uma divertida e emocionante participção do público. Depois deste tortuoso caminho, encontramos algo. Como escreveu Tenneesse, uma rua é reta, mas o coração humano é mais tortuoso que um estrada nas montanhas. Mas claro que a bondade de estranhos sempre ajuda.

segunda-feira, 24 de janeiro de 2011



Depois da bem sucedida experiência de fazer do teatro uma arte coletiva integrando atores e público realizada ano passado sob o título de ESTA NOITE IMPROVISA, volto com a proposta. Teatro é um espaço da imaginação e do exercício emocional e através de jogos, estímulos e exercícios encontramos um espaço lúdico. Estes exercícios acionam o homos ludem que mora dentro de nós desde as mais arcaicas civilizações. O encontro dionisíaco regado a vinho e champanhe leva as almas ao entusiasmo e ao êxtase. Dois conceitos da antiguidade que dão conta da vivência divina e ser tomado pelo espíto de deus. Dioniso insifla a alma e proporciona o clima emocional e criativo para montarmos, eu, os atores e o público, uma das peças mais importantes do teatro contemporâneo: UM BONDE CHAMADO DESEJO, de Tennesse Williams.
A peça dividida em três partes. Começa com jogos de improvisação com atores do grupo. Seguem-se exercícios teatrais com participação do público. E na terceira e última parte são apresentadas sinopes de Um Bonde Chamado Desejo, discussão dos personagens, a situação dramática, e ilustramos com cenas do filme der Elia Kazan. A seguir, mantendo o clima de jogo e imaginação, improvisamos as cenas com os personagens da peça. O público é participante e essencial, mas sem obrogatoriedade de participação. Sucedem-se de leituras das cenas, improvisações e ensaios.
Ao final da noite montaremos uma sequencia das melhores cenas de modo a fazer um recorte de um dos textos mais famosos da dramaturgia mundial.